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Rumo a uma teologia da oralidade

Artico do Lausanne (sugestão de leitura)

Billy Coppedge

"a oralidade, ou comunicação oral entre pessoas, não é uma questão secundária. Estamos falando de algo que está no cerne de toda a realidade, pois Deus, que é a realidade, vive em perpétua comunicação interpessoal."



Artigo

Rumo a uma teologia da oralidade

Reavaliando a importância da oralidade para o L4 e 2050

Billy Coppedge - 15 DEZ 2022

 

Um equívoco comum a respeito da oralidade transita hoje em alguns círculos missionários. Quando o assunto vem à tona, as pessoas costumam concordar educadamente sobre sua importância para grupos com pouca ou nenhuma alfabetização, enfatizam que esse não é seu público-alvo e passam para o próximo tema.

 

No entanto, uma visão tão limitada da oralidade impede que se perceba a linha que pode ser traçada entre a comunicação oral e interpessoal e a natureza de Deus e Sua missão hoje. Talvez possamos aprender juntos se abordarmos o tema por um ângulo diferente.

 

Quais são as questões críticas no contexto da obra missionária global hoje?

 

Com certeza, é possível elaborar rapidamente uma lista impressionante: gênero e sexualidade humana, casamento, família, contextualização em meio à glocalização, marginalização contemporânea, diásporas e refugiados, big techs, pobreza sistêmica, pobreza bíblica, sistemas políticos, mudanças climáticas etc. E a lista pode ser facilmente estendida. No entanto, é válido perguntar: Que tema é comum a todos esses desafios enfrentados hoje pela Igreja global?

 

Para responder a essa pergunta, eu gostaria de relembrar uma observação feita por Matthew Niermann em um dos encontros de líderes do Movimento de Lausanne realizado em Nova York, em 2022. Enquanto exibia sua bem elaborada apresentação e atualização do relatório State of the World, Niermann sugeriu que a principal pergunta que moldará as realidades mundiais em 2050 será: O que significa ser humano?

 

A observação de Niermann nos ajuda a identificar o denominador comum em todas as questões críticas enfrentadas pelas missões mundiais hoje: os seres humanos. Independentemente de conflitos ou contextos, não podemos falar sobre o futuro da obra missionária sem falar sobre pessoalidade.

 

Ironicamente, essa observação parece quase simplista e desperta a típica reação: “Mas, é claro!” No entanto, se formos honestos, reconheceremos que há certa humildade na pessoalidade, talvez como resultado de nossa familiaridade aparentemente excessiva com nossa própria espécie, que faz com que a maioria de nós incorra na mesma questão que, segundo Niermann, pode ser a chave para impactar o mundo com a mensagem de Cristo. Se a oralidade tem alguma relação com a comunicação pessoal, então é preciso perguntar: O que significa ser uma pessoa humana?

 

Em sua singular abordagem cristológica da teologia, Dennis Kinlaw sugere que qualquer discussão sobre a pessoalidade deve começar com Jesus. Embora não haja aqui espaço que permita uma exploração mais abrangente, Kinlaw descreve vários aspectos da pessoalidade, todos eles tendo origem em Cristo Jesus.

 

Apesar de ser ligeiramente técnico, esse processo de estabelecer as características da pessoalidade é extremamente relevante, tanto para a investigação crítica de Niermann quanto para o começo do reconhecimento da importância da oralidade como comunicação interpessoal. Kinlaw começa observando que as pessoas têm consciência de sua própria identidade. Jesus sabia qual era sua identidade – ele não era o Pai nem o Espírito.

 

Em segundo lugar, apesar de distinguir-se de seu Pai e do Espírito, receber Jesus é receber o Pai, pois há uma interconectividade entre as duas pessoas. As pessoas sempre vêm em redes de relacionamentos.

 

Terceiro, Jesus exemplifica a natureza recíproca da pessoalidade por meio da qual os membros da Santíssima Trindade continuamente se doam e interagem entre si. Essa coexistência mútua é chamada de pericorese, e Kinlaw resume esse conceito pela afirmação: “A vida interior da Divindade Trina é, portanto, uma vida de comunhão na qual as três pessoas divinas vivem a interdependência: umas das outras, umas para as outras e umas nas outras” (83).

 

O surpreendente é que Kinlaw afirma que Jesus não está apenas exemplificando os relacionamentos pessoais divinos, mas também a forma como os relacionamentos pessoais humanos devem funcionar – uma perpétua e mútua comunhão de expressão de amor.

 

Quarto, vemos em Jesus uma liberdade inerente à pessoalidade. Toda a vida de Jesus é submetida ao cumprimento da vontade, das palavras e das obras de seu Pai; ainda assim, há uma alegria na atitude de Jesus. Ele é o exemplo de uma liberdade que não apenas recebe (ou toma para si), mas pode doar voluntariamente.

 

Quinto, as pessoas são criadas com a capacidade de escolher entre o certo e o errado. Kinlaw chama isso de consciência moral e observa que as pessoas têm o potencial de serem santas quando se relacionam com Aquele que é santo (89).

 

Sexto, há uma abertura à pessoalidade de Jesus, uma autotranscendência que é também e uma permeabilidade. Isso significa que “a chave para entender Jesus não estava em Jesus. Estava além dele. Ele viveu alegremente em Outro (sic), por meio de Outro e para Outro” (96).

 

Tudo isso leva Kinlaw a sugerir uma sétima característica da pessoalidade – a completude, que, na relação com outros, só pode ser encontrada no amor abnegado. Como Kinlaw conclui, se os seres humanos não se originam, sustentam ou explicam em si mesmos, conclui-se, naturalmente, que não nos realizamos em nós mesmos” (101). Portanto, ser uma pessoa é relacionar-se com outras pessoas, estar em comunhão com outros.

 

Surge, então, a pergunta intrigante: O que isso tem a ver com oralidade?

 

A resposta simples é: tudo. Kinlaw argumenta que ser uma pessoa é estar em relacionamento – em comunhão ou comunicação com outras pessoas. Os seres humanos são feitos à imagem de um Deus pessoal, portanto somos como ele.

 

Não existe pessoa solitária. Não é possível ser apenas um. Somos feitos para relacionamentos porque o próprio Deus é relacional em seu ser. Para nosso propósito aqui, é preciso enfatizar que não há relacionamento sem comunicação. Todos os relacionamentos interpessoais envolvem comunicação pessoal. Isso quer dizer que a oralidade, ou comunicação oral entre pessoas, não é uma questão secundária. Estamos falando de algo que está no cerne de toda a realidade, pois Deus, que é a realidade, vive em perpétua comunicação interpessoal.

 

O jogo volta-se, então, para o significado da comunicação oral e sua importância para o que Lausanne está tentando fazer nas missões mundiais e por meio delas.

 

Entretanto, para que possamos compreender a relação entre oralidade e pessoalidade, há uma questão relevante que exige uma exploração mais aprofundada. Como o Deus Trino comunicou seu amor abnegado a pessoas como você e eu?

 

Trata-se de algo de extrema importância, pois Deus poderia decidir manter seu amor para si mesmo, dentro de seu relacionamento trino; mas não é o que ele faz. Deus escolhe comunicar seu amor abnegado por meio de sua Palavra. Jesus não se revela como um texto em si mesmo, mas como o logos, a Palavra de Deus.

 

Observe em João 1 a predominância da Palavra que, desde o princípio, estava com Deus e era Deus. Além disso, todas as coisas foram criadas por intermédio da Palavra. O autor de Hebreus 11.3 faz esta afirmação: “…o universo foi formado pela palavra de Deus”. Isso confere à palavra falada e oral um potencial santo e criativo que talvez muitos de nós tenhamos subestimado. Hoje, louvado seja Deus, temos o texto escrito para preservar a história de Deus de uma geração para outra. Mas devemos reconhecer que o texto escrito é uma forma secundária de comunicação após a Palavra falada original de Deus: Jesus Cristo.

 

Há aqui outro elemento que deve ser reconhecido. A oralidade não envolve apenas a palavra falada, mas também a palavra corporificada. Sem a presença física de corpos humanos, podemos ter comunicação via mídia impressa ou digital, mas não temos comunicação oral.

 

Essa é uma das limitações, mas também uma das belezas da comunicação oral — a corporificação. O envolvimento do corpo na comunicação oral faz toda a diferença, permitindo que o significado multissensorial (ou multimodal) seja comunicado de várias maneiras além do discurso verbal.

 

Assim, lemos naturalmente a linguagem corporal das pessoas, seus gestos, tom de voz, expressões faciais e até proximidade ou distância para maximizar o significado total do que está sendo comunicado. Mas não somos originais nisso porque o Deus Criador, em cuja imagem comunicante fomos criados, nos oferece não apenas a Palavra falada, mas nos diz, em João 1.14, que ele veio como a Palavra encarnada, corporificada.

 

É apropriado, portanto, que durante a época do Natal, nos lembremos que em Jesus encontramos a imagem mais clara da comunicação encarnada de Deus para conosco: seus movimentos corporais (por exemplo, João 8.6b), seus gestos (Marcos 1.41), seu tom de voz (João 7.28) e até mesmo suas expressões faciais (Marcos 3.5; João 11.35). Também não há imagem mais clara da corporificação da comunicação desse amor abnegado de Deus do que os braços estendidos de Jesus na cruz.

 

Como seres humanos, fomos feitos à imagem desse Deus — o Deus oral, corporificado e comunicativo que não poupa esforços para comunicar seu amor. A oralidade envolve tanto a palavra falada quanto a corporificada, e Jesus é a Palavra de Deus falada e encarnada.

 

Essa percepção é bem diferente do estereótipo genérico que interpreta a oralidade apenas como uma ferramenta pragmática para se relacionar com pessoas carentes de alfabetização; pelo contrário, a oralidade encontra suas origens na própria natureza de Deus – um Deus Trino relacional que se comunicou ao mundo como a Palavra falada e corporificada.

 

Ainda mais surpreendente é que a comunicação interpessoal do Deus Trino – a comunhão que ocorre entre as três pessoas divinas – foi aberta aos seres humanos por meio de Jesus Cristo. Através da Palavra de Deus, os seres humanos são convidados a se comunicar com o próprio Deus. É disso que trata João 15: “Eu os chamo de amigos porque lhes dei a conhecer [comuniquei] tudo o que o Pai revelou [comunicou] a mim”.

 

Como discípulos da Palavra, somos criados à sua imagem para a comunicação interpessoal com ele, e em nossa intimidade conversacional com a Palavra, ele nos convida a comunicá-lo – a Palavra – a pessoas que nunca tiveram a oportunidade de participar dessa conversa sagrada.

 

O Lausanne 4 (ou L4) e o congresso de Seul 2024 serão uma assembleia sagrada de homens e mulheres de todo o mundo que encontraram a Palavra e foram transformados por seu amor abnegado. A partir dessa transformação, seu fardo é compartilhar a Palavra, de forma falada e corpórea, para que outros também possam conhecer esse amor tão abnegado.

 

O que a oralidade tem a ver com a obra missionária e o L4? Podemos afirmar: tudo.

 

Biografia do autor:

 

Billy (William) Coppedge e sua esposa Joanna viveram e trabalharam em Uganda por muitos anos com a Missão Evangélica Mundial. Sua paixão é ajudar as pessoas a encontrar Jesus por meio da Palavra de Deus. Billy é PhD em Cristianismo Mundial pela Universidade de Edimburgo, com sua pesquisa focada principalmente na oralidade e no engajamento das Escrituras no cristianismo de Uganda. Com seu projeto Lausanne Co-Catalysts for Orality, ele é mediador do podcast sobre oralidade God Speaks: Conversations on Orality and the Gospel.

 


 




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