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  • Foto do escritorRodrigo Tinoco

A Palavra Viva para línguas vivas

Atualizado: 30 de mai.


Ricki Gidoomal | 18 abr 2023

Texto original em:


NÃO É HORA DE LEVARMOS ÀS COMUNIDADES ORAIS O QUE REALMENTE IMPORTA?


Que histórias bíblicas você guarda no coração? Quais delas você ouvia quando criança? E quais já contou a seus filhos? [. . .] Pense agora, e se você desconhecesse essas histórias? E se você não pudesse entender todo o fundamento do evangelho porque jamais ouviu a história completa?[1]


Pouco menos de 10% das línguas do mundo têm a tradução completa da Bíblia.[2] Essa realidade é preocupante se realmente cremos que haverá pessoas de toda ethnos (nação), phylē (tribo), laos (povo) e glōssa (língua) ao redor do trono celestial de Deus, conforme a visão de João registrada em Apocalipse 7.9.


Estima-se também que 45% das mais de 7.300 línguas do mundo não têm uma forma escrita (ortografia). Essas culturas orais representam um grande desafio e uma oportunidade ímpar para o movimento de tradução da Bíblia que, tradicionalmente, se baseia em textos.



A oralidade e a imagem de Deus


“Oralidade” não é um conceito novo. Pelo contrário, é “um fenômeno do passado que sobrevive até o presente”.[3] Nas culturas orais, as noções de história, identidade e religião são preservadas através da transmissão de relatos, provérbios, poemas, canções, enigmas e muito mais. Essas noções estão, muitas vezes, entrelaçadas a cerimônias, dramas e ritos de passagem. Mesmo sem nenhum registro escrito, as sociedades exclusivamente orais transmitem à geração seguinte tudo o que consideram importante.


A comunicação oral, no entanto, não se limita a culturas exclusivamente orais. Todos nós aprendemos nossa primeira língua de forma unicamente oral e, mesmo depois de aprendermos a ler e escrever, não nos damos conta do quanto ainda dependemos da comunicação oral. Isso talvez se evidencie na prevalência da mídia audiovisual, uma forma de comunicação que transcende as diferenças de gerações, culturas e níveis de alfabetização. Os comunicadores orais secundários, aqueles totalmente alfabetizados, mas que preferem os meios de comunicação orais, revelam que as estratégias orais não se limitam a serem algumas das ferramentas entre muitas outras em nossa caixa de ferramentas de discipulado, tampouco metodologias simplificadas para os incultos. A oralidade, sem dúvida alguma, tem profunda conexão com quem somos como seres humanos.


Na verdade, a “mensagem textual” das Escrituras é apenas um dos muitos métodos usados por Deus para se comunicar com a humanidade.


Há muito tempo Deus falou muitas vezes e de várias maneiras aos nossos antepassados por meio dos profetas, mas nestes últimos dias falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e por meio de quem fez o universo (Hb 1.1-2 NIV)


Basta contemplar as maravilhas da criação, a rica tapeçaria de rituais e simbolismos associados à adoração no tabernáculo e no templo e, finalmente, o próprio Deus encarnado, para perceber que a Bíblia que temos hoje é um relato escrito dos muitos atos de comunicação oral por meio dos quais Deus transmitiu à humanidade o seu evangelho do Reino.


Os seres humanos, feitos à imagem de Deus, também são projetados para a palavra falada, tendo o texto como ferramenta ou tecnologia,[4] e não o contrário. Não surpreende, portanto, que para uma língua ser considerada “viva”, ela precise de falantes vivos. Existem volumes de texto escritos em latim e grego clássico, mas se não há falantes dessas línguas, elas se classificam como “línguas mortas”.


Então, como levar o texto bíblico para as mais de 1.800 línguas vivas que não têm ortografia própria? Como oferecer a Palavra de Deus a culturas e grupos de pessoas que transmitem “tudo o que importa” sem o recurso dos registros escritos?




A Palavra Viva para línguas vivas


Hoje, valorizamos muito o texto, especialmente quando se trata da tradução da Bíblia. O modelo tradicional de tradução exige anos de trabalho para que seja possível desenvolver ortografias para idiomas que carecem de uma. E antes que a Palavra de Deus possa ser traduzida ou compreendida, esse trabalho deve ser seguido pela alfabetização da comunidade. A produção de uma única tradução, portanto, é um processo que pode levar mais de 25 anos.


E mesmo com a alfabetização recente de uma comunidade e a disponibilidade de textos bíblicos, muitas vezes ouvimos a pergunta: “Se a mensagem é tão importante, por que está escondida nas páginas de um livro?” A pergunta não surge da falta de conhecimento, capacidade ou inteligência da comunidade-alvo, mas sim da valorização da palavra falada sobre a palavra escrita como meio de transmissão da verdade em comunidades orais.


Esse desafio não deveria nos surpreender. Lembre-se que a Bíblia surgiu de um contexto de comunicação oral no qual o texto desempenhava um papel bem mais limitado do que em muitas culturas hoje. Estima-se que a taxa de alfabetização dos judeus na Palestina romana do primeiro século era menos de 3% e talvez fosse ainda menor na Galileia, uma região rural.[5] É praticamente certo que os primeiros discípulos de Jesus eram comunicadores orais. Portanto, é possível afirmar que, naquele momento da história, “não havia um público leitor, apenas a leitura pública”.[6]


Uma breve análise da linguagem usada no “Shemá, Israel” [“Ouve, Israel”] de Deuteronômio 6.4-9, o preceito central do judaísmo, revela a natureza oral da cultura receptora. Os mandamentos de Deus para Israel são quase inteiramente de natureza oral (ouvir, ensinar, conversar) e participativos (andar, deitar-se, levantar, amarrar). “Escreve” aparece uma vez, mas apenas como o comando final de uma longa lista. Um estudo mais aprofundado da linguagem usada nas Escrituras nos mostra que os imperativos divinos para ouvir (shemá) superam os comandos para escrever (kathab e grapho) em uma proporção de quase três para um.[7]


Se as Escrituras foram inicialmente transmitidas oralmente a povos orais e continham instruções elaboradas para seus comunicadores, não é lógico que uma abordagem oral da tradução da Bíblia seja válida para grupos de povos com essa mesma característica hoje?




A tradução oral da Bíblia – Um “novo” fenômeno antigo?


A tradução oral da Bíblia (TOB) acontecia milênios antes de Walter Ong redigir suas teorias sobre a oralidade. No livro de Gênesis, por exemplo, grandes porções da história de José se passam no Egito, onde o hebraico não era a língua dominante (Gn 42.23). Todos os diálogos desse período da vida de José, portanto, devem ter sido traduzidos oralmente, pois a história foi transmitida de forma falada, até que o texto fosse escrito em hebraico. Da mesma forma, a fala de Jesus e dos discípulos, que se acredita ter sido em aramaico, aparentemente foi escrita primeiro em grego.[8]


Hoje, o surgimento de novas tecnologias nos permite adotar processos para a tradução oral da Bíblia que são, da mesma forma, absolutamente orais. Um dos softwares, o Render, permite a uma equipe de tradutores de língua materna aplicar a um processo totalmente oral as mesmas verificações e revisões rigorosas pelas quais uma tradução escrita passa – conduzidas pela equipe, pela comunidade, pelo processo de tradução reversa, ou back translation, ou por um consultor. Isso os ajuda a trabalhar entre seu próprio povo para traduzir a Palavra de Deus com clareza e precisão em um formato que possam entender e usar.


Nos últimos anos, devido à crescente demanda do campo pela “versão completa da Bíblia”, as agências especializadas na narração do relato bíblico assumiram o trabalho de tradução oral da Bíblia. Novas tecnologias estão surgindo, bem como organizações e movimentos de base para traduzir a Palavra para as comunidades orais.


O que chama atenção nessas abordagens é que as comunidades às quais elas atendem não ficam mais alienadas do processo em virtude da barreira do idioma ou da alfabetização. Além disso, o grande impacto dessas abordagens é potencializado pelo compartilhamento instantâneo de uma tradução oral. “Assim que uma gravação é aprovada — seja de alguns versos ou de um livro inteiro — ela fica disponível para ser compartilhada digitalmente com a comunidade local”. [9] Essa velocidade de acesso permite que as boas novas se espalhem muito rapidamente!




Os jovens e a colaboração – a chave da multiplicação


Em dezembro de 2020, a JOCUM (Jovens com uma Missão) trouxe ao movimento de tradução da Bíblia “um novo olhar”, energia e capital humano considerável quando apresentou sua meta de tradução oral da Bíblia para 1000 línguas [em inglês, a OBT 1000]: “Pelo menos mil dessas línguas terão, no mínimo, 30 passagens bíblicas no estilo ‘Prove & Veja’ e uma gravação em áudio de um filme gospel—seja de Lucas, no filme JESUS, ou a gravação de Marcos, no projeto LUMO”. A estratégia da JOCUM para alcançar a meta da OBT 1000 inclui mobilizar 72 bases de treinamento estrategicamente próximas a línguas sem acesso à Bíblia.


A iniciativa da comunidade de tradutores da Bíblia de abraçar os esforços da JOCUM nos serve de encorajamento. Os membros da JOCUM atuam em estreita parceria com os parceiros da Wycliffe Global Alliance, incluindo: Faith Comes by Hearing, a Fundação 4.2.20, o Instituto de Línguas Bíblicas e a Associação de Tradução de Bíblias e Literaturas, entre outros. Juntas, essas organizações usam o treinamento inovador e imersivo no idioma de origem para desenvolver falantes da língua materna que assumam a liderança na tradução da Palavra de Deus em seus próprios idiomas.[10]


Essa abordagem que prioriza a oralidade está permitindo que as comunidades tenham acesso quase imediato a trechos da Palavra de Deus em um formato que possam entender. E a JOCUM não está sozinha nessa iniciativa, pois seu pioneirismo está encorajando e abrindo caminho a outros grupos e agências que desejam alinhar-se a outros parceiros para servir suas próprias comunidades com traduções orais da Bíblia.




Desafios e oportunidades


O que, portanto, podemos sugerir à igreja global? Proponho investir nossos corações, orações e recursos em três áreas principais:


Apoio: À medida que são adotados métodos orais e tecnologias emergentes, devemos ajudar a comunidade em geral a entender a autoridade e a validade das traduções orais da Bíblia, bem como o uso das artes, reconhecendo que a Bíblia que temos hoje existia oralmente muito antes de ter sido escrita. Essas formas orais devem ser consideradas uma ferramenta essencial para o discipulado se desejamos ver o evangelho do reino integrado a uma cultura, e não algo que é recebido apenas como um subsistema ou uma extensão.


Colaboração: Toda a igreja deve estar unida em sua resposta à tremenda necessidade de disponibilizar a Bíblia completa no formato de áudio [modalidade oral]. Parcerias como as mencionadas acima têm um enorme potencial de multiplicação. Os envolvidos estão assumindo os riscos inerentes e investindo seus recursos – humanos, financeiros e outros – no objetivo mais amplo de acabar com essa condição de desigualdade em relação ao acesso à Bíblia.


Treinamento: Da mesma forma, a necessidade de treinamento — historicamente um processo textual volumoso ou carregado de textos — nos apresenta novas oportunidades. As pedagogias orais e imersivas nos permitem oferecer aos comunicadores orais o mais alto nível de treinamento, para que possam produzir traduções de qualidade que resistam ao teste do tempo.


O Reverendíssimo Senhor Cônego Katete Jackson Jones, da região de Chama, na Zâmbia, fez a seguinte afirmação após o início da tradução oral da Bíblia na comunidade de Senga:


Assim que receberam as Escrituras na língua senga, as crianças começaram a dizer: “Jesus é senga – como ele aprendeu a falar senga?” A tradução oral da Bíblia associa o evangelho ao povo. Agora temos a Bíblia em senga. Ele está conosco. Ele é Emanuel.


Gostaria de concluir com este desafio e encorajamento: “A tradução oral da Bíblia associa o evangelho ao povo”. Se Deus achou necessário prover uma representação oral da sua Palavra escrita, manifesta em seu Filho, Jesus, que é o Verbo, a Palavra Viva, quanto mais ainda precisamos levar as abordagens orais em consideração quando apresentamos e integramos a sua Palavra às comunidades que estão sedentas para recebê-la? Afinal, as palavras faladas têm transmitido “tudo o que importa” a incontáveis gerações. Não está na hora de levarmos às comunidades orais o que realmente importa?



Notas:

1. “The Original Testament Gap”. 4.2.20 Foundation. vídeo, https://theotgap.bible/resources/

2. “2022 Global Scripture Access”, Wycliffe Global Alliance. Setembro de 2022. https://www.wycliffe.net/pt-br/recursos/estadisticas/

3. “What is Orality?” International Orality Network. https://orality.net/about/what-is-orality/

4. Walter J. Ong. Orality and Literacy: The Technologizing of the Word. Routledge, 1982.

5. https://faculty.biu.ac.il/~barilm/articles/to_check/illitera.html; Catherin Hezser. Jewish Literacy in Roman Palestine. Mohr Siebeck, 2001.

6. John Walton. The Lost World of Scripture. InterVarsity Press, 2013.

7. Pesquisa de David J Hamilton, 2023.

8. Bryan Harmelink. Apresentação no 2023 OBT Global Gathering. Entebbe, janeiro de 2023.

9. “Oral Bible Translation”. Faith Comes By Hearing. n.d. https://www.faithcomesbyhearing.com/what-we-do/oral-bible-translation.

10. Jim Killam. “’YWAM Has People’ … and a Big Vision”. Wycliffe Global Alliance. 10 de Janeiro de 2022. https://www.wycliffe.net/pt-br/jocum-tem-pessoas-e-uma-grande-visao/.


Ricki Gidoomal atua como chefe de gabinete da 4.2.20 Foundation e como associado sênior de comunicações da International Orality Network. Trabalha também como catalisador de Lausanne para a oralidade e atualmente vive em Israel com sua esposa e filhos.

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